sábado, junho 30, 2007
Pudesse Eu
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andreson
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andreson
sexta-feira, junho 29, 2007
Los Borges
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte del tiempo,
de la tierra y del olvido.
Mejor así.Cumplida la faena,
son Portugal,son la famosa gente
que forzó las murallas del Orientey
se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
Jorge Luis Borges
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte del tiempo,
de la tierra y del olvido.
Mejor así.Cumplida la faena,
son Portugal,son la famosa gente
que forzó las murallas del Orientey
se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
Jorge Luis Borges
quinta-feira, junho 28, 2007
Também se pode
regressar sem partir.
Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários.
Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios.
E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
Albano Martins, "Escrito a Vermelho"
regressar sem partir.
Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários.
Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios.
E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
Albano Martins, "Escrito a Vermelho"
quarta-feira, junho 27, 2007
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Nuno Júdice
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Nuno Júdice
terça-feira, junho 26, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Em mim, a guerra
Divide os continentes.
O laço oceânico, que embora nos unia,
Cortaram-no.
Restam duas flâmulas, que a pouco
Desfalecem, sumidas
E pouco flutuam
Nos abismos nocturnos.
É tempo de ir em busca de outros mundos,
Movido pelo império que em mim se usa;
Capitão da minha escuna,
As vozes de coragem comandam
Em todos que em mim se escutam e confiam.
Decidimos os destinos
Ausentes de emoção;
O sangue derramado que nos guia,
O nosso sangue!
É ele que em nós resgata a divindade.
Olhai, vós, desgraçados,
Mercenários do presente!
É ainda a dor esmagada que vos prende
Que em nós torna daudável a loucura.
Tão certos rasgamos a onda que nos leva,
Nós, os deserdados das histórias de crianças,
Erguidos à Vida!
Tão sérios os rostos nas vésperas do sonho...
Tão sérios os rostos.
Só Deus nos faria regressar... Ah!
Mas Deus é o piloto do infinito.
Vinde, pois, irmãos de um outro sangue
—Amigos, chegados sem prévio aviso ou súplica
—Vinde!
É tempo de sermos nós os mandatários,
Colonos da Terra infecundada.
Ruy Cinatti
Divide os continentes.
O laço oceânico, que embora nos unia,
Cortaram-no.
Restam duas flâmulas, que a pouco
Desfalecem, sumidas
E pouco flutuam
Nos abismos nocturnos.
É tempo de ir em busca de outros mundos,
Movido pelo império que em mim se usa;
Capitão da minha escuna,
As vozes de coragem comandam
Em todos que em mim se escutam e confiam.
Decidimos os destinos
Ausentes de emoção;
O sangue derramado que nos guia,
O nosso sangue!
É ele que em nós resgata a divindade.
Olhai, vós, desgraçados,
Mercenários do presente!
É ainda a dor esmagada que vos prende
Que em nós torna daudável a loucura.
Tão certos rasgamos a onda que nos leva,
Nós, os deserdados das histórias de crianças,
Erguidos à Vida!
Tão sérios os rostos nas vésperas do sonho...
Tão sérios os rostos.
Só Deus nos faria regressar... Ah!
Mas Deus é o piloto do infinito.
Vinde, pois, irmãos de um outro sangue
—Amigos, chegados sem prévio aviso ou súplica
—Vinde!
É tempo de sermos nós os mandatários,
Colonos da Terra infecundada.
Ruy Cinatti
domingo, junho 24, 2007
Apesar dos avisos
Apesar dos avisos, das cautelas, dos caldos de galinha, perdi-te
numa grande superfície em domingo de bola na luz. Ia comprar-te
roupa, aos jornais, ver se o café já chegara, e de repente, enquanto
olhava a montra engalanada de chocolates, estava só o teu sítio.
Foste no turbilhão da multidão ululante com uma bandeira na mão
gritar por portugal, sentei-me num banco a ver televisões
e na esperança de te ver quando filmassem as claques. Passou a hora
e meia mais o intervalo -nem preciso dizer que nunca mais te vi.
Agora investigo até ao mínimo detalhe o conceito de amor
nos vários pontos da terra e sei que hei-de encontrar um
que me corresponda. Pois o mundo é uma bola chutada num anúncio
da coca-cola, às vezes o amor só se vê quando desaparece,
quando comíamos conquilhas e bebíamos vinho verde chamava-se
amizade. Mas eu ainda só vou no ocidente mais ocidental.
De olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois
pela raiva da estupidez de chorar, cravo os olhos em mim mesmo
a sentir bater o coração ao centro, se ao menos à hora da morte
se decifrasse o enigma. Mas nem isso se sabe ao certo, é essa a dor
criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível.
Porque mostrar a dor sistemática, onde pairam nuvens negras,
não é mostrar a tua beleza, nem a minha, ou a da escrita. Talvez
se comprasse bilhete e me misturasse com todos quem sabe se
não te encontraria, a comer nougat e a rir, achando normal eu ali.
Não, nunca mais te vi, por vezes conto um conto para fingir
que tive um sonho, sem vergonha a tremedeira cresce em pernas
e em braços, aquele banco para mim ficou um lugar sagrado e volto
aos domingos sempre, pode ser que te encontre na igreja dos costumes.
Helder Moura Pereira
numa grande superfície em domingo de bola na luz. Ia comprar-te
roupa, aos jornais, ver se o café já chegara, e de repente, enquanto
olhava a montra engalanada de chocolates, estava só o teu sítio.
Foste no turbilhão da multidão ululante com uma bandeira na mão
gritar por portugal, sentei-me num banco a ver televisões
e na esperança de te ver quando filmassem as claques. Passou a hora
e meia mais o intervalo -nem preciso dizer que nunca mais te vi.
Agora investigo até ao mínimo detalhe o conceito de amor
nos vários pontos da terra e sei que hei-de encontrar um
que me corresponda. Pois o mundo é uma bola chutada num anúncio
da coca-cola, às vezes o amor só se vê quando desaparece,
quando comíamos conquilhas e bebíamos vinho verde chamava-se
amizade. Mas eu ainda só vou no ocidente mais ocidental.
De olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois
pela raiva da estupidez de chorar, cravo os olhos em mim mesmo
a sentir bater o coração ao centro, se ao menos à hora da morte
se decifrasse o enigma. Mas nem isso se sabe ao certo, é essa a dor
criativa da incerteza. E criar cria-se assim mas pode ser coisa horrível.
Porque mostrar a dor sistemática, onde pairam nuvens negras,
não é mostrar a tua beleza, nem a minha, ou a da escrita. Talvez
se comprasse bilhete e me misturasse com todos quem sabe se
não te encontraria, a comer nougat e a rir, achando normal eu ali.
Não, nunca mais te vi, por vezes conto um conto para fingir
que tive um sonho, sem vergonha a tremedeira cresce em pernas
e em braços, aquele banco para mim ficou um lugar sagrado e volto
aos domingos sempre, pode ser que te encontre na igreja dos costumes.
Helder Moura Pereira
sábado, junho 23, 2007
Sacode as nuvens
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Coral", Editorial Caminho
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Coral", Editorial Caminho
sexta-feira, junho 22, 2007
O sorriso
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
quinta-feira, junho 21, 2007
Canção de Embalar
Apoia a tua cabeça adormecida, amor,
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.
A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.
A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são e.legantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.
A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
Que noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.
W.H. Auden
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.
A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.
A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são e.legantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.
A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
Que noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.
W.H. Auden
quarta-feira, junho 20, 2007
carry your heart with me
carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)
e.e. cummings
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)
e.e. cummings
segunda-feira, junho 18, 2007
A língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos
Carlos Drummond de Andrade
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos
Carlos Drummond de Andrade
domingo, junho 17, 2007
O Livro dos Amantes I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Natália Correia
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Natália Correia
sábado, junho 16, 2007
sexta-feira, junho 15, 2007
Serge Gainsbourg - La chanson de Prévert
Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C'était ta préférée
Je crois
Qu'elle est de Prévert et Kosma
Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour
Les amours mortes
N'en finissent pas de mourir
Avec d'autres bien sûr je m'abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m' indiffère
A cela il n'est rien
A faire
Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour
Les amours mortes
N'en finissent pas de mourir
Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l'indifférence
Passe l'automne vienne
L'hiver
Et que la chanson de Prévert
Cette chanson
Les Feuilles Mortes
S'efface de mon souvenir
Et ce jour là
Mes amours mortes
En auront fini de mourir
Certitude
Si je te parle c'est pour mieux t'entendre
Si je t'entends je suis sûr de te comprendre
Si tu souris c'est pour mieux m'envahir
Si tu souris je vois le monde entier
Si je t'étreins c'est pour me continuer
Si nous vivons tout sera à plaisir
Si je te quitte nous nous souviendrons
En te quittant nous nous retrouverons
Paul Éluard
Si je t'entends je suis sûr de te comprendre
Si tu souris c'est pour mieux m'envahir
Si tu souris je vois le monde entier
Si je t'étreins c'est pour me continuer
Si nous vivons tout sera à plaisir
Si je te quitte nous nous souviendrons
En te quittant nous nous retrouverons
Paul Éluard
quinta-feira, junho 14, 2007
Soneto do Amor Difícil
A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira
quarta-feira, junho 13, 2007
Como é por dentro outra pessoa
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Fernando Pessoa
As tentações de Santo António (Santo Antão) IV

Dali - "The Temptation of Saint Anthony", 1946
Musées Royaux des Beaux Arts de Belgique, Brussels

Max Ernest, "The Temptation of St Anthony", 1946
As tentações de Santo António (Santo Antão) III

Lovis Corinth-"The Temptation of St Anthony
after Gustave Flaubert",1908, Tate Gallery

Cézanne -"La Tentation de Saint Antoine", vers 1875,
Louvre
.jpg)
Claude Lorrain - "Paysage avec la Tentation de St Antoine",
vers 1637/38
As tentações de Santo António (Santo Antão) II

David Teniers The Younger - "Temptation of Saint Anthony"
Parentino, Bernardo - Temptation of Saint Anthony, 1500,
Savoldo, Giovanni Girolamo "Temptation of Saint Anthony"
Patenier, Joachim - "The Temptation of Saint Anthony"
Rops, Félicien - "Temptation of Saint Anthony ",
As Tentações de Santo António (Santo Antão) I

Bosch "The Temptation of St Anthony", (painel central),1500
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Matthias-Grünewald - "Temptation of St Anthony", 1510-15
Musée d'Unterlinden, France
terça-feira, junho 12, 2007
Max Ernest

Max Ernest - The Blessed Virgin Chastises the Infant Jesus Before Three Witnesses, 1926, Museum Ludwig, Köln
segunda-feira, junho 11, 2007
Três homens amarrotados
pelas estrelas e pelo sol
esperam
cada um o seu caixão.
Ninguém morre no meio
de uma cidade:
há sempre o nome de
uma rua ou uma sala
de estar. A família
é a única parte da cidade
que não nos estranha. De resto,
o fumo sai da chaminé, as
fábricas prosseguem, o exérctio
protege-nos das invasões
e o trabalho do tempo livre. Afinal,
o teu coração é que não está intacto,
não é o mundo.
Gonçalo M. Tavares - "A perna esquerda de Paris", Relógio D´Água
pelas estrelas e pelo sol
esperam
cada um o seu caixão.
Ninguém morre no meio
de uma cidade:
há sempre o nome de
uma rua ou uma sala
de estar. A família
é a única parte da cidade
que não nos estranha. De resto,
o fumo sai da chaminé, as
fábricas prosseguem, o exérctio
protege-nos das invasões
e o trabalho do tempo livre. Afinal,
o teu coração é que não está intacto,
não é o mundo.
Gonçalo M. Tavares - "A perna esquerda de Paris", Relógio D´Água
domingo, junho 10, 2007
Dia de Camões
Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
Da vista se me perde, e da esperança.
Luís de Camões
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
Da vista se me perde, e da esperança.
Luís de Camões
sábado, junho 09, 2007
O Tabaco da Vida
De amor cantando,
Sem nele demasiado acreditar,
Dei a volta ao coração (demorei anos):
Está só – mas sem nenhuma vontade de parar…
Desiludidos? Paciência, amigos…
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
Entre as mulheres, o tabaco da vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,
Exemplares cretinos nesta noite comprida…
Alexandre O’Neill , "Poemas com Endereço", Morais Editora
Sem nele demasiado acreditar,
Dei a volta ao coração (demorei anos):
Está só – mas sem nenhuma vontade de parar…
Desiludidos? Paciência, amigos…
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
Entre as mulheres, o tabaco da vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,
Exemplares cretinos nesta noite comprida…
Alexandre O’Neill , "Poemas com Endereço", Morais Editora

Jean-François Millet - "La Méridienne", 1866
Museum of Fine Arts, Boston

John Singer Sargent - "Noon rest" (after Millet),1875
Metropolitan Museum of Art, New York
,+1890.jpg)
Van Gogh - "Noon Rest from Work"(afterMillet),1890
Musée d'Orsay, Paris

Picasso, "Sleeping Peasants", 1919, MoMA
Coisas tão felizes
Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?
José Tolentino Mendonça, "Baldios", Assírio & Alvim
jamais se afastam
coisas tão felizes:
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?
José Tolentino Mendonça, "Baldios", Assírio & Alvim
sexta-feira, junho 08, 2007
Paul Klee e o Peixe de Lume

Klee - "The golden Fish", 1925, Hamburger Kunsthalle
Se repentinamente
a infânca me doesse a meio da oceânica noite
no espelho de rubra água cercada pela treva
onde nenhum rosto ousa reflecir-se brilharia
o minúsculo peixe de lume
e na obscuridade púrpura sua cabeça de ouro
incendiaria o tranparente interior das anénomas
as escamas em jade fulgurando
simulam um sol em cada sonho
vibra um búzio triste uma alga ou um peixe como este
cresce a partir do centro rubro da tela
acende e apaga o distante pulsar da infância
acordo em sobressalto
deparo com a subtil inteligência do peixe
imobilizado na magia barata dum bilhete postal
sei que está numa galeria de arte em hamburgo
deixa-se consumir pelo tempo
e pelo olhar dalgum visitante furtivo sonhador
Al Berto, "A Secreta Vida Das Imagens"
Se repentinamente
a infânca me doesse a meio da oceânica noite
no espelho de rubra água cercada pela treva
onde nenhum rosto ousa reflecir-se brilharia
o minúsculo peixe de lume
e na obscuridade púrpura sua cabeça de ouro
incendiaria o tranparente interior das anénomas
as escamas em jade fulgurando
simulam um sol em cada sonho
vibra um búzio triste uma alga ou um peixe como este
cresce a partir do centro rubro da tela
acende e apaga o distante pulsar da infância
acordo em sobressalto
deparo com a subtil inteligência do peixe
imobilizado na magia barata dum bilhete postal
sei que está numa galeria de arte em hamburgo
deixa-se consumir pelo tempo
e pelo olhar dalgum visitante furtivo sonhador
Al Berto, "A Secreta Vida Das Imagens"
quinta-feira, junho 07, 2007
As palavras
As palavras aspiram ao inicial ao puro percurso
que não corresponde a nenhuma linha de universo
A sua liberdade é uma volúvel coerência
em torno do evanescente fulgor de um móvel oriente
Elas rompem oblíquamente o silêncio em frémitos minerais
respirando o fúnebre perfume do vácuo
e caminham com a agilidade inaugural do sémen da língua
figurando a sua génese numa abertura ao nada
Se fluem como a mão nua da água
e sobre a surdez do mundo deixam um ténue rastro
é porque a sua trama é a maresia do seu sopro
e ao ritmo da respiração o seu horizonte ondula
António Ramos Rosa, in "As Palavras",
Campo das Letras
que não corresponde a nenhuma linha de universo
A sua liberdade é uma volúvel coerência
em torno do evanescente fulgor de um móvel oriente
Elas rompem oblíquamente o silêncio em frémitos minerais
respirando o fúnebre perfume do vácuo
e caminham com a agilidade inaugural do sémen da língua
figurando a sua génese numa abertura ao nada
Se fluem como a mão nua da água
e sobre a surdez do mundo deixam um ténue rastro
é porque a sua trama é a maresia do seu sopro
e ao ritmo da respiração o seu horizonte ondula
António Ramos Rosa, in "As Palavras",
Campo das Letras
quarta-feira, junho 06, 2007
cantilena para um tocador de flauta cego
Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.
Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite
E pois que as escalas que cansas
Nos dizem que o dia acabou,
Faz-nos crer que os céus dançam
Porque um cego cantou.
Marguerite Yourcenar, in "Rosa do Mundo,
Trad. de Mário Cesariny

Manet - "Le Fifre ", 1866, Musée d'Orsay,Paris
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.
Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite
E pois que as escalas que cansas
Nos dizem que o dia acabou,
Faz-nos crer que os céus dançam
Porque um cego cantou.
Marguerite Yourcenar, in "Rosa do Mundo,
Trad. de Mário Cesariny

Manet - "Le Fifre ", 1866, Musée d'Orsay,Paris
terça-feira, junho 05, 2007
The Wine Of Circe

Burne-Jones - "Circe", Private Collection
Dusk-haired and gold-robed o'er the golden wine
She stoops, wherein, distilled of death and shame,
Sink the black drops; while, lit with fragrant flame,
Round her spread board the golden sunflowers shine.
Doth Helios here with Hecaté combine
(O Circe, thou their votaress!) to proclaim
For these thy guests all rapture in Love's name,
Till pitiless Night give Day the countersign?
Lords of their hour, they come. And by her knee
Those cowering beasts, their equals heretofore,
Wait; who with them in new equality
To-night shall echo back the sea's dull roar
With a vain wail from passion's tide-strown shore
Where the dishevelled seaweed hates the sea.
Dante Gabriel Rossetti
Con su cabello oscuro y sus prendas de oro
sobre el áureo vino se inclina y la funesta
ponzoña, que destila de la muerte y la afrenta,
derrama. En tanto brillan circundando su mesa,
como fragantes llamas, girasoles dorados.
¿Es así como uniendo a Helios con Hécate
(Oh, Circe, su devota) induces a tus huéspedes
al éxtasis de amor hasta que el alba llega?
Vinieron por su propia voluntad, y a tus plantas,
en doblegadas bestias transformados, aguardan
a quienes hechizados como ellos, en la noche,
bramarán como un eco del mar, deseando en vano
que bata la marea de la pasión sus playas,
como las desgreñadas algas que arroja el mar.
tradução roubada aqui
segunda-feira, junho 04, 2007
Everyman de Philip Roth

Com o título de "Todo-o-Mundo" (???) a última obra de Philip Roth ("Everyman") será lançada pela D. Quixote, hoje, na Feira do Livro.
A critica de Nadime Gordimer no "The New York Times"
Se eu Pudesse
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro
domingo, junho 03, 2007
Pide un deseo
Ver el alba contigo,
ver contigo la noche
y ver de nuevo el alba
en la luz de tus ojos.
Amalia Bautista, "Pre-textos", Valencia, 2004
ver contigo la noche
y ver de nuevo el alba
en la luz de tus ojos.
Amalia Bautista, "Pre-textos", Valencia, 2004
sábado, junho 02, 2007
Avec le temps
Avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus
Léo Ferré
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie le visage et l'on oublie la voix
le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
l'autre qu'on devinait au détour d'un regard
entre les mots, entre les lignes et sous le fard
d'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
avec le temps tout s'évanouit
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'as un' de ces gueules
à la gal'rie j'farfouille dans les rayons d'la mort
le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
l'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
l'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
avec le temps, va, tout va bien
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
on oublie les passions et l'on oublie les voix
qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid
avec le temps...
avec le temps, va, tout s'en va
et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
et l'on se sent floué par les années perdues- alors vraiment
avec le temps on n'aime plus
Léo Ferré
sexta-feira, junho 01, 2007
Que Pena.Éramos uma invenção tão boa
Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
Até voávamos um pouco
Yehuda Amichai - in "Qual é a Minha ou a Tua Língua",
Trad.Jorge Sousa Braga,Assirio&Alvim
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
Até voávamos um pouco
Yehuda Amichai - in "Qual é a Minha ou a Tua Língua",
Trad.Jorge Sousa Braga,Assirio&Alvim
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